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Acontecer é irreversível

Diante de tudo, não posso deixar de me perguntar: quem foi que passou aqui antes de mim?
O que foi que ele ou ela viu, ouviu e sentiu e que me escapou? Como seria ter chegado aqui 100 anos atrás? Como essa rua se tornou uma rua, ganhou um nome, calçada, bancos, árvores? E o que será que ela perdeu no caminho?
Como será a vida de quem passa todo dia por aqui? Será que ele ou ela percebe aquele tijolo fora do lugar? Aquele cachorro dormindo na sombra, no meio-fio? O jeito como o vento passa por ali, sacode as folhas das árvores levemente em certa direção, faz oscilar e ranger na dobradiça a folha daquela janela antiga que pende aberta, expondo a simplicidade da casinha que guarda?
E qual é a história de quem mora naquela casinha? Por que não trocou a janela, como parecem ter feito tantos vizinhos? Que memória do passado guarda aquela madeira envelhecida, a tinta azul gasta, o vidro opaco? Será uma memória feliz? Quantas mãos diferentes já não devem ter aberto e fechado aquela janela! E …

Maturidade e Espiritualidade

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Então alguém da Órbita publicou isso aqui: A escalada para a maturidade Excelente para uma reflexão matinal. Vejo ali alguns quesitos nos quais progredi muito nos últimos anos, embora ainda precisem de trabalho, e alguns em que eu ainda tenho muito a melhorar. Depois da reflexão pra dentro, fiz uma reflexão pra fora: o que isso tem a ver com a situação do mundo agora e, principalmente, com o estado e posicionamento da juventude. O resultado da minha breve reflexão, que eu gostaria de discutir com vocês: boa parte da nossa geração (nascidos entre os anos 1980 e 2000), chamada de Millennials ou Geração Y sofre de uma séria crise de maturidade. E, do meu ponto de vista, isso tem tudo a ver com uma séria crise espiritual. Preciso fazer um grande parênteses aqui para me explicar melhor. Espiritualidade é, para mim, um tema extremamente complexo e delicado. Como eu já disse em outras postagens, eu já fui extremamente religiosa. Mas o momento em que isso aconteceu foi o momento em que eu en…

É esse o vírus que eu sugiro que você contraia

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Quando eu escrevi o Simplicidade, eu não queria transformar esse blog num blog sobre depressão, ou sobre doenças psíquicas de uma forma geral. Eu queria dividir. Queria saber se haviam outras pessoas como eu, e dizer pra elas que elas não estão sozinhas. Queria que alguém, quem sabe, se inspirasse na minha iniciativa de dividir e criasse a coragem de dividir também.

Muitas vezes as pessoas me perguntam: Marina, o que você quer ser da vida? ou O que você quer estar fazendo daqui a cinco, dez anos?

Eu não tenho resposta pra essas perguntas. Pelo menos não uma resposta tradicional: dizer onde quero estar morando, onde quero estar trabalhando, se estarei casada, com filhos... Não sei de nada disso, e, pra ser honesta, só penso nisso porque me perguntam. Esse tipo de pergunta parece partir do pressuposto de que quantos filhos terei, onde estarei morando, quanto estarei ganhando, de alguma forma vão definir o meu grau de sucesso como pessoa, permitir que eu me compare a outros, diga se eu e…

Cheguei agora, no vento.

Fiquei muito feliz com a recepção de você ao post Simplicidade. Confesso que não esperava e que tinha medo. Inúmeras vezes pensei em discutir esse assunto aqui, em sair do armário, mas sempre desistia por pensar que ninguém ficaria confortável com a minha exposição exagerada. Talvez, no fim, eu temesse apenas o meu próprio desconforto.
A verdade é que falar publicamente sobre algo tão meu, com o qual eu vivo todas as horas do meu dia, até dormindo, é mesmo intimidante, e imagino que não seja só pra mim. Na minha terapia, descobrimos que eu avanço mais quando falo sem olhar para o terapeuta. Já faz mais de seis meses que todas as minhas sessões são assim: olhando e falando para a parede. Agora estou aqui, olhando para o computador, e vocês estão aí do outro lado. Então é mais fácil. Na internet, criamos personas que só tem as características que nós queremos que tenham. Eu podia muito bem vir aqui e falar sobre como é tudo lindo na minha vida e eu sou fantástica, e a princípio ninguém…

Um pedido

Sobre o primeiro parágrafo da minha postagem anterior...
Gostaria muito de ter desenhada essa minha imagem mental. Penso seriamente em tatuá-la, inclusive, porque representa muito pra mim, e vai sempre representar. Por isso peço aos amigos e/ou visitantes que tiverem jeito para o desenho (que eu tenho absolutamente nenhum): se sentiram algo com esse texto, tentem expressar em desenho o primeiro parágrafo e as suas próprias impressões. Alguém topa? Está lançado o desafio.

Simplicidade

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Uma imagem: uma menina se olha no espelho. Ela, confusa, resignada, pensativa. Ela do espelho, cheia de si, com o dedo apontado e as sobrancelhas franzidas. E isso resume a minha vida. Não é mesmo muito complicado, no final.
Um dia após o outro, um dia após o outro... o projeto de ontem é esquecido, surge um novo hoje, que já não é o mesmo amanhã. No quarto dia, três projetos frustrados.
Estou com vontade de falar com vocês sobre a depressão. É difícil. É difícil porque é íntimo, mas também porque é tabu. É vergonha, é fraqueza: e é daí mesmo que ela nasce - da vergonha, da fraqueza, da necessidade de ser igual. Mas, como diz o Marcelo Cidral, somos todos muito iguais e ao mesmo tempo muito diferentes. E somos extremamente limitados... Existem pessoas com as quais conversar me faz pensar. Não pensar na hora, não me sentir bem ou mal imediatamente. Mas refletir, até filosofar. Conversando com algumas pessoas assim, posso passar meses remoendo a conversa. Enfim, certo dia, conversando c…
Fico encarando a folha ou a tela em branco, mas na verdade não sei muito o que dizer.
Aperto no peito não seria a expressão certa, é mais como se meu peito estivesse sempre prestes a explodir. Tem algo querendo muito se libertar e não consegue encontrar um caminho. Quando encontra, geralmente, esse caminho são as lágrimas. A parte consciente de mim, que insiste em tentar encontrar uma razão pra tudo, entende ainda menos: o choro sai sem parar, uma fonte que não seca nunca, que só dá espaço pro soluço, mas o motivo continua desaparecido.
Em outro dia, atrás do divã, aquelas perguntas: "Como é essa sensação?" "Quando ela acontece?" "No que você pensa na hora?"
Não dá pra descrever a sensação física. É como se tudo que está reprimido em mim resolvesse dar as caras ao mesmo tempo e achar um canal por onde sair. Às vezes eles ficam lá, na superfície, me sufocando, até alguém me dar um abraço. O abraço faz a ponte e tudo flui em rios de lágrimas. Às vezes um ab…